CANÇÃO DE VENTO

  

canção de vento e cipós

no ventre da floresta

olho soterrado no umbigo

da montanha

acordes intangíveis para além

da vertigem álibi do tropeço

o ciscar de pedras e grifos

joeira de celofane e

barbante telúrico fauno elétrico

desposando a vestal

simbólica do viço

 

de açúcar e losna – têmpera

do sabor ao despejo

um legado de heras e horas por

decifrar o ócio

por deleitar as sílabas

da canção de vento

por confiscar os ladrilhos

imersos nas lágrimas históricas

dos que forjaram

a esperança dos bons tempos

 

a floresta traduzida

sobressai ao umbigo ao ritmo

ao íntimo das possíveis vozes

em coro distorcidas

acordes e delírio

doce é a maresia do balé migratório

sobre o verde da vertigem

delicadamente desfolhada

em abismos de vagalumes e cicios

e a canção desposada

imerge no calendário d’outros

tempos nunca decorridos

 AGILIDADE

 

 o tempo ágil espreme

o pavio além das alvas cordilheiras

cegos candeeiros longe

marcam fronteiras

 

a paisagem torce o nariz a

cada miragem prende o susto

das rajadas como de confetes

fosse carnaval

 

será tão ligeiro passar?

 

os rostos apáticos compilam

rugas e estrias em côncavos

sorrisos a desatar epifanias

tais epifanias recorrentes

à imagem singular de Safo

e a alguma lira distraída

lambem os difíceis lábios

rociados de elegíaca poesia

 

não são beijos de pecado

tampouco muda lamúria

mas arcanos sagrados

balbuciados na ponta da língua

 VITÓRIA-RÉGIA

 

rósea flor carnuda

refração da Via-Láctea

no paroxismo do meio-dia

extensa renda de alfaias

 

epifania dos meus sentidos

se espreguiça presunçosa

em largo leito freático

seu riso paralisado é deleite

de gozo que não acaba

 

céu sobre céu

roça a superfície aérea onde

jazem estrelas de gás

e o carbono da terra não alcança

almas em espirais

ardendo guirlandas de febre

um paroxismo azul

pavimentando

o planetário de folhas em

suspensa ordenação cai

 

 

 

 

Destaques

ATITUDE não quero ser ex de ninguém não quero ser morta como se eu fosse um bandido não tenho gênero meu número é ímpar   Direitos Autorais ...