ATITUDE
não quero ser ex de ninguém
não quero ser morta
como se eu fosse um bandido
não tenho gênero
meu número é ímpar
Direitos Autorais reservados ao autor: Carlos Laet Gonçalves de Oliveira
Poesias, Crônicas, Contos, etc
CANÇÃO
DE VENTO
canção
de vento e cipós
no
ventre da floresta
olho
soterrado no umbigo
da
montanha
acordes
intangíveis para além
da
vertigem álibi do tropeço
o
ciscar de pedras e grifos
joeira
de celofane e
barbante
telúrico fauno elétrico
desposando
a vestal
simbólica
do viço
de
açúcar e losna – têmpera
do
sabor ao despejo
um
legado de heras e horas por
decifrar
o ócio
por
deleitar as sílabas
da
canção de vento
por
confiscar os ladrilhos
imersos
nas lágrimas históricas
dos
que forjaram
a
esperança dos bons tempos
a
floresta traduzida
sobressai
ao umbigo ao ritmo
ao
íntimo das possíveis vozes
em
coro distorcidas
acordes
e delírio
doce
é a maresia do balé migratório
sobre
o verde da vertigem
delicadamente
desfolhada
em
abismos de vagalumes e cicios
e
a canção desposada
imerge
no calendário d’outros
tempos
nunca decorridos
AGILIDADE
o
pavio além das alvas cordilheiras
cegos
candeeiros longe
marcam
fronteiras
a
paisagem torce o nariz a
cada
miragem prende o susto
das
rajadas como de confetes
fosse
carnaval
será
tão ligeiro passar?
os
rostos apáticos compilam
rugas
e estrias em côncavos
sorrisos
a desatar epifanias
tais
epifanias recorrentes
à
imagem singular de Safo
e
a alguma lira distraída
lambem
os difíceis lábios
rociados
de elegíaca poesia
não
são beijos de pecado
tampouco
muda lamúria
mas
arcanos sagrados
balbuciados
na ponta da língua
VITÓRIA-RÉGIA
rósea
flor carnuda
refração
da Via-Láctea
no
paroxismo do meio-dia
extensa
renda de alfaias
epifania
dos meus sentidos
se
espreguiça presunçosa
em
largo leito freático
seu
riso paralisado é deleite
de
gozo que não acaba
céu
sobre céu
roça
a superfície aérea onde
jazem
estrelas de gás
e
o carbono da terra não alcança
almas
em espirais
ardendo
guirlandas de febre
um
paroxismo azul
pavimentando
o
planetário de folhas em
suspensa
ordenação cai
ESTALO
estalar de dedos
(sigilo
de contar o tempo)
rente
à chuva basta iluminar a fresta
e
a réstia de uma ínfima
explosão
espoca como um flash
feixes
de aparentes improvisos
assoviados
pelo vento
do
outono sob as unhas
húmus
e fábulas
ou
síncope de flautas no retrovisor
de
vozes ou passagem a outro
hemisfério
através dos poros
ou
considerar em cada
gota
de chuva vértebras
do
contato súbito – fogo e chão
deveria
o tempo da palavra
desossar
os mortos
acrisolar
lápides – mineral do esboço
a
lápis sobre espelho
fluxo
de chorume nos subterrâneos
inacessíveis
curiosidade oca
é
possível sincronizar o
a
destempo
cardumes
de búzios com
o
tilintar de enxames de estrelas
DESCALÇO
avaliar andar
descalço
têmpera de quem
sente a terra
pelos calcanhares
subindo raízes aos
cotovelos
tento ampulhetas de
não passar em
branco
o limo confiscando
pedras
os pés pisando frio
os haveres quando
em quando
andar descalço
conhece
paraíso no fazer
parte
de uma cena de
domingo
e as raízes subindo
alcançam
o teto do sótão
onde eu durmo as
noites
de verões
escaldantes
a fim de pescar
brisas mais
amenas
café eu só tomo de
manhã…
cedo descer degraus
e retomar
elementos de terra
nos
pés descalços
CORPO PROVISÓRIO
o giro fora da lei especulando
a gravidade dos movimentos
de ruptura aparente
esconderijos nichos bordões o
semblante
lançado à revelia do outro e uma
nova tentação intencional um rasgo
de destreza licitado ante o esforço
não pactuado
antes uma denominação de regra
transitada na ponta dos pés
e agora todos os gatilhos armados
para o susto
avoamentos o corpo provisório
ante o aspecto imprevisto do giro
fora da lei
a evolução de uma luminosidade fria
indo
ao intenso do fôlego
resumia dentro de um pensamento
relatos fragmentários
elipses recortes descartes recessos
com que montava sua aura de bondade
inconteste afundada num coração
pequenino
feito um relógio frágil
desfizera-se
em incontáveis pontos a estralar
os últimos segundos antes do
colapso
UM CORPO NO TEMPO
repentino
o tempo deságua sua
visceral plenitude
resignadamente
convexo cava ininterruptas
reflexões
sem reticências
sem retóricas
nem pontos de interrogação
o tempo é a
soma de fragmentários
momentos
PRETÉRITO INCERTO
a qualquer momento
transição
desabamento sobre outra
probabilidade apocalíptica
nada se encerra
por completa interpretação
embora
pedra sobre pedra
os corpos coincidam
com a extinção e
ainda haverá alguém
nalguma gruta a
reescrever reminiscências
apócrifas
por linhas tontas
em língua morta
PRESENÇA ARTICULADA
em quatro linhas se
dedica
a revelar a apoteótica
aparição
a disciplina
da
continuidade é
pertencer
como necessidade
real
da existência
um
corpo dentro do cenário
orgânico
se assume
a
presença articulada do explícito
sugere
no abdômen
uma
vistosa tatuagem
O DESENHO DE UMA CORUJA
desenhar na pálpebra
uma coruja
sair pela culatra
um tiro da cartola
coelhos lenços bengalas
um proscrito
da magia de mim mesmo
dou asas ao que quero
:
uma coruja na pálpebra
atenta contra a noite
rasante
mergulha
trajetória cujo raio
descreve a agudeza do
movimento
no momento em que
o corpo cai de si
ROLETA CLANDESTINA
cai um corpo
atrás da ventania
dois edifícios no cristalino
do olho a alma defenestrada
é vã
as cores são inventadas
no momento
em que as coisas
sobressaem o corpo é
um dado apenas
na roleta clandestina
dos fatos de onde
cai de forma infinita
ATITUDE não quero ser ex de ninguém não quero ser morta como se eu fosse um bandido não tenho gênero meu número é ímpar Direitos Autorais ...