JORNADA

 

eu perdido do mundo

a passos largos.

eu indeciso entre a farsa e o

redemoinho.

diagnósticos precipitados não

ajudarão.

a espera é a chave enquanto

caminho

no sentido da escuridão.

meu movimento é te achar

custe a dor ou

a maresia do pesadelo;

custe a lã que prevarica o novelo.

eu além já passo da hora

de acreditar no destino

e nada de ti em parte alguma.

QUANDO É AMOR

 

o amor é uma grata sensação de ter

por perto alguém e

ter que esperar a vez de se entregar.

vez em quando dói e

é normal; nem sempre

há de ser igual: o amor é uma onda

pra quem gosta de surfar o

risco de levar um caldo de levar a sorte

debaixo do braço

um maço de cartas embaralhadas

um poema desvalido

no meio dos papéis

um rebuliço de incógnitas digitais.

..........................................

o amor quando se afasta é

um trem indo ao contrário deserdando

a esperança infectando as lembranças

esvaziando os armários; apenas

um relicário fendido; apenas um brinco

no porta-joias esquecido de propósito sem

pedra sem fecho a dizer que quem

partiu não volta mais.

 

ÀS SEIS DA MANHÃ

 

            exaustos de não

            exóticos de si

faunos inanimados

                        na prateleira de praxe

se dedicam a PEQUENOS OBSÉQUIOS:

    presságios crendices entre

outras irrelevâncias metafísicas

 

_____________________não menos

 

                        mal se lhes vê a silhueta

em cirúrgicos recortes esvanecidos

            pelo foco da luminária em transe

 

nada esclarece tudo revolve mediato

no próprio exílio em si

……………………………..

 

pálidas observações de um sigilo

                        intransponível recaem

neve podada nos telhados

            (e o rádio-relógio intercede

                        – estridente e implacável

            preciso e imprescindível – às seis)

 SABOR DE AUSÊNCIA

 

saudade PARTE

O CORAÇÃO fica

um sabor de morango

fresco tirado

do pé no instante

em que UMA LÁGRIMA

desaponta no canto

do lábio o seu sal

 

ILUSÃO ACÚSTICA

 

a farsa mais trágica da circunstância

 

………………………………....

 

no instante mínimo em que a voz cristalina

                                                              corta

 

            o alfabeto do trânsito

a ópera balbuciada na hora do rush

                                               alcança na pauta

o rebentar de corolas partindo um outdoor

                                                           de néons

 

UMA VÍRGULA QUE CAI

nas dobraduras das ruas

 

                        ilusão acústica:

o instrumento se toca no semblante luminoso

outras VOZES de relógios impassíveis

soam em milhões de ave-marias

 

…?

 

VÁLIDO ATÉ 

 

na calçada da fome

dois meninos índigos correm nus

impulsionando esqueletos sujos

de passarinho raquíticos

ou pairam nos arcos pisando nuvens

 

poderiam num OUTDOOR mas não

 

lambuzados búzios

bebem a salmoura do lixão

comem restos hospitalares

entre seringas descartadas e ampolas

decapitadas – já não sonham

APÓCRIFO POEMA

 

réptil voa fuselagem sequestro

relâmpago destro asa lâmina em brasa

três vezes ao dia cápsulas

cópula ato revolto

solta a voz em dissonante canção

vertente do medo ao molho pardo

perdoa esse meu atrabiliário

modo de seR/vir e de sem ti

achar que convém perder(-me)

 

vou afora ágil ajo

rapto VOLÚPIA estranhamente tua

vileza incerto revide desarma-se

desalmado meu ódio captura

ideogramas estruturas ósseas ouço

Bach no esconso da minha cela óbvio

ovni risca em meu olho apócrifo pOeMa

FRISSON

 

uma brecha dourada de ocidente

AO RÉS DA SERRA

atrás d’algum inconveniente edifício

PERMITE-SE VERTER

OURO CONGELADO num orifício

DE NUVENS COMPACTAS

 

com patas e crina fenícia

Pégaso refulge quase posto

 

 

um flash captado

em fração demorada de tempo

UM FRISSON INESPERADO

que eu tanto desejei

e há pouco tinha

mas não sabia o que fazer

FUMANDO EM PARIS

 

apanho um estampido do frasco de Bromil

bebo uma réstia de lua pingando na fresta da telha 

puta que o pariu! – Paris é logo

(atrás de mim o relógio funde-se com a parede)

                                                                       aqui

 

um caranguejo a milhas de mim

                                   cheio de ademanes

                                                                       ri

anêmonas anônimas

                        vestem anáguas de renda e sal

os barcos descansam da maré o período que seja esperar

            que um segredo se despenhe em coser as redes

 

a minha tosse parece de vidro brilhar 

 

relâmpagos e trovões convidam águas

                                                           a bailar

no trapézio lunar entre fluidos azuis

            leio a mão de uma cigana

                                               e sei

            que o fumo desse cigarro está

                                               me matando aos

                                                           poucos

POEMA TARELHO


entre o relógio

e a FOTOGRAFIA

um poema tarelho

SE SITUA PENDENTE

marcando o INVISÍVEL

 

e não adianta forçar

ele pulsará sempre

assim gota a gota

até delirar de um corpo

fora do tempo

PODERIA REMBRANDT

 

signos de verão

sinos de um janeiro extinto

a torturar de saudade

o que julgava resolvido

intransitivo querer

 

saudade:

ferrugem

a carcomer além de tudo

os meus instintos

 

e tudo se desfaz e refaz

com as velhas tintas do godê 

Destaques

ATITUDE não quero ser ex de ninguém não quero ser morta como se eu fosse um bandido não tenho gênero meu número é ímpar   Direitos Autorais ...