A REPETIÇÃO DOS DIAS 


todos os dias o mesmo ar se respira anodizado

pelos odores da cercania. as mesmas cores repetidas

aqui e ali entre os passos que seguem cegos as mesmas

trilhas compassadamente sistemáticos por saberem

o chão a textura da insônia matinal.

dos borrões ainda úmidos que enchem os pulmões

de vicissitudes e armações não programadas

distâncias a percorrer todos os dias

os mesmos passos sublinhados pela profecia de andar

a esmo cego feito um morcego diuturno e tácito

as mesmas sagrações dos dias que inundam de

lembranças o que ainda há pra ser dito o sacudir

das cores que às flores dão de pintar um jardim

em torno da casa onde insetos visitam ao redor

das flores suas manhas e minúsculas evidências.

há um intervalo no calendário abrindo porteiras e girais

pra esconder dúbias vontades permeadas de finais

felizes às vezes uns tropeços súbitos que se repetem

caprichosamente ao nascer de todos os dias. 

ALGUMAS PELA METADE



algumas peças em branco no meio dos papéis algumas
poesias inescritas no meio de gritos abafados
no meio de gestos abstratos o olhar voltado para o vazio
da janela encalçando a imagem daquela que
sob o merídio sol dobra a esquina e some no fumo
das descargas dos automóveis sem um gesto
sem um esboço de arrependimento súbito uma buzina
me desperta diante da janela que agora
fecho por desfecho irreparável
imparável no peito o coração acelerado à boca quer
saltar os pijamas sobre a cama revirada dão
conta do vazio do eco tardio da imagem daquela
dobrando a esquina no meio da fumaça
dão conta da rua que segue em branco esbarrando
algumas novidades ao longo e em meio
a fisionomias extraídas de um filme noir
MORTE SÚBITA

o corpo já não vive mais entre nós
os nós de uma teia os nus das vitrinas
as naus do pensamento diluído em algum momento
se rompeu uma porta que se abre à direita sem
claridade e sem permissão de ver porventura o corpo
já desvencilhado de nós paralelamente passeia
outras paisagens outros ruídos e cá entre botões
e rosários uma reza numa explosão de vozes
se repete em fatigados améns

ficaram a relação com a casa os rostos
as chaves na porta mechas vasos velas e um
amontoado de coisas por guardar ficaram
resquícios no tapete no sofá restos na cozinha a louça
por lavar o rádio ainda ligado baixinho
e o pior de tudo armários
cheios de silêncios e lembranças palavras
sem saliva no nó da garganta e entre os móveis
empoados as marcas da última chuva

Destaques

ATITUDE não quero ser ex de ninguém não quero ser morta como se eu fosse um bandido não tenho gênero meu número é ímpar   Direitos Autorais ...