PÓ
o consentimento desse processo
industrial da nudez em que
tudo mais
imita a tua geografia
milhares de cadáveres e
uma poesia mutilada coberta
pelo pó dos olhares vagos
lá fora uma
echarpe de neblina contorna
as elevações
ARQUEOLOGIA
no bolor dos arquivos
uma sessão de trapaças em forma
de papel
há no meio das prateleiras uma
passagem secreta e
por trás das paredes
um esquecido cemitério de
almas anônimas
SEM TÍTULO
alguma coisa acomete o meu íntimo
e inscreve no peito raigotas de anseios
o ritmo tropeça numa coreografia intempestiva
e
desanda até o humor dos pardais
profanações à tona orquestradas para ferir
mancham de suor os sudários de minha cama
o tempo todo é despojar o sentimento de perda
e
tentar a qualquer custo recolher migalhas de redenção
de sorte ou piedade ainda busco me erguer
das cinzas
apesar das mãos afogadas servem de remo
enquanto nado a nada lendo no quadrante de
uma bússola
avariada o destino das ondas agitadas
II
marcas superficiais
desenhos de bichos e códices
a visão impermanente do futuro escavado
no ápice da integridade
desintegrada à primeira explosão
o sentido é mover-se contra as pedras
e o que se conceitua infrangível ao
primeiro sopro subverte
crânios de insetos incestuosos contra
a luz alta da lua cheia de pálidas
escoriações se esfacelam imperceptíveis
não custa olhar acima onde
as fissuras regurgitam estrelas
ódio e amor no mesmo copo
quinquilharias pelo avesso da memória
longas ladainhas escoram
a virgindade dos primeiros passos
é o que cose o viés e
sustenta o desejo de estar sempre de pé
opostos em regra
irmanados no intento
graves na entonação
percorrem lado a lado – rio e margem –
uma só direção
IV
merecimento encolhido nas
dobras da pele
impele o tempo a passar
imprevisível
parte da vida para a qual
escolhida
cada pessoa exerce o
inconsciente destino de percorrer
o caminho à frente
tal qual se estende em distância
e itinerário
V
os olhos siameses por
trás das lágrimas reinventam
a saudade como lenços
desfraldados ao sabor da despedida
logo a nudez se enfeita de
profunda calidez
e a imaculada sensação de pudor
desabotoa um gozo
que será pra sempre
até que o amor…
enquanto a chama não se dedique
a esquecer há de durar
na memória
o último toque na pele – o mais
ardente dentre todos
os que já sentiu
Nenhum comentário:
Postar um comentário